O agronegócio brasileiro enfrenta um desafio estrutural na agregação de valor à sua principal commodity: o país processa apenas 35% de toda a soja colhida em seu território. Em contrapartida, os Estados Unidos esmagam cerca de 62% de sua safra, convertendo o grão em produtos de maior valor agregado e fortalecendo a indústria nacional. O alerta foi feito pelo ex-ministro da Agricultura, Antonio Cabrera.
Caso o Brasil atingisse o patamar de processamento norte-americano, o volume de esmagamento interno saltaria de 67 milhões para quase 112 milhões de toneladas ao ano. Esse acréscimo de 48 milhões de toneladas industrializadas internamente representa mais da metade de todo o grão bruto exportado pelo país para a China no último ano.
Segundo a análise, o fortalecimento do mercado de biocombustíveis é o caminho central para absorver essa matéria-prima. Enquanto a Indonésia já adota a mistura de 50% de biodiesel no combustível fóssil (B50) e os EUA projetam alta expressiva no consumo, o Brasil permanece fixado no B15. A expansão para misturas como B20 ou B30 impulsionaria a geração de empregos no interior, aumentaria a segurança energética e protegeria os produtores rurais das oscilações do mercado internacional.
Outro ponto crítico apontado pelo especialista é a vulnerabilidade do campo frente a eventos climáticos. Atualmente, a subvenção do seguro rural cobre apenas 3,3% da área agrícola brasileira, em forte contraste com países como a China, que estabeleceu como meta cobrir cerca de 90% das áreas de cultivo de grãos essenciais. Cabrera defende a urgência de políticas públicas estruturantes para expandir o processamento de biomassa e fortalecer os mecanismos de garantia financeira à produção nacional.




















